10 de dezembro de 2009

Até que a vida os separe

Um dos motivos pelos quais eu não penso em casar é porque não me preocupo com o bem-estar do outro. Sou orgulhosa, teimosa, nada matinal e preciso de ao menos uma hora diária sozinha com meus papeis, livros e artistas favoritos para não enlouquecer. Seria um tormento para alguém conviver comigo todos os dias e ainda ter que me amar, me levar pra jantar vez ou outra, me encher de mimos e tentar - sem muito sucesso - não olhar pras pernas daquelazinha que acabou de passar. Por outro lado, sempre gostei de comédias românticas, e, ao ver as besteirinhas amorosas que meus amigos (alguns deles não são tão cachorros) "aprontam" para suas namoradas, não resisto: faço cara de retardada e grito um OWN! daqueles bem de mulherzinha mesmo. Então por que, toda vez que escuto que alguém vai se casar, faço uma cara de descrença e solto uma risadinha sarcástica do tipo Ah, boa sorte com isso!?

Uma filosofia barata diz que a gente tem o relacionamento do pai como reflexo nos relacionamentos amorosos durante toda a vida. Isso não me incentiva muito. Meu pai nunca foi um marido digno de nota, e como pai... Bem, pode-se dizer que ele não foi o mais dedicado, também. (Obrigada, mãe! A única coisa que eu herdei de você foi a capacidade cega de acreditar no amor em um mundo onde os homens praticamente imploram pra que não acreditemos. Não o cabelo liso. Nem o desempenho incrível no colégio.) Voltando ao meu pai: ele era meio que... um canalha. Ele, e talvez o pai dele, e o pai do pai dele, e o motorista de táxi que me trouxe em casa hoje e Pedro Álvares Cabral, que ao chegar ao Brasil achou muito divertido poder traçar todas aquelas indiazinhas e ainda ter uma senhora europeia caso quisesse casa, comida e roupa lavada. 
Tá, sem generalizar. Conheço uns poucos garotos incríveis e alguns casamentos duradouros, daqueles em que os velhinhos andam de mãos dadas até pra ir na padaria. (Vamos lá, comigo: OWWWN!) Mas, não consigo parar de pensar: será que os casamentos de hoje em dia tem potencial pra isso? Com toda a solidão que paira em nossas cabeças diariamente, não sei se as pessoas estão prontas para se amarrar a uma pessoa só. Queremos alguém divertido, mas também que se preocupe. Que nos faça rir, mas também que nos acalme quando estivermos chorando. Às vezes não se pode achar tudo isso em uma pessoa só, e as pessoas tentam conciliar isso... ficando com duas pessoas! Se você achou tudo isso em um só alguém - ou não é tão exigente assim, e o amor é verdadeiro, e não seja por pura conveniência, parabéns! Casa aí, acho lindo, juro. 
Nos dias de hoje, se você se atrasa um pouco nas notícias, acaba nem sabendo do casamento do fulano. É, ele casou, mas já se separou da cicrana, e está noivo da beltrana! Ou pior: enquanto está com a cicrana, há uma quantidade imensa de beltranas bem ali, ao alcance de sua agenda telefônica. As pessoas traem porque não amam? Certo, então a pergunta é: se não amam, por que estão juntos? Porque é conveniente, porque a beltrana não se importa de ser mais uma. O amor se tornou banal assim como sexo se tornou banal, e para as pessoas que não sabem diferenciá-los, é pior ainda: uma noite vira um casamento, que no final, acaba sendo mais um divórcio (e mais um advogado rico, convenhamos). Esses seriados que me divertem em tardes modorrentas e em noites frias com brigadeiro e cobertor, e a novela das 8, e o filme da sessão da tarde (tirando aquele do cachorrinho, e o do macaco, e é claro, A Lagoa Azul) mostram que trair é normal, é comum, que casamento é uma coisa que Ah, se não der certo, a gente separa. Se não é pra toda a vida, então não diz que vai ser pra toda vida, oras. Junta os trapos, mora junto. Ou então casa, que seja! Mas por favor, se não der certo, não vá correr pra baixo da saia (ou do vestido branco estufado, nesse caso) da primeira que aparecer.


Pode ser que daqui a alguns anos vocês escutem que eu casei, e me separei, sei lá, uma semana depois. Estou acostumada a morder a língua para um monte de coisas. Pórem, se meu pensamento continuar do jeito que está, acabarei, no máximo, juntando as escovas de dente. E talvez alguns discos antigos. Por enquanto, se, um dia, me embolarem num vestido branco caríssimo alugado, ao escutar alguém dizer "Ana Beatriz, você aceita...", se no lugar das reticências, não vier "trabalhar como editora na Vogue?", "excluir física do seu currículo escolar?" ou "mais um pedaço de chocolate?", a resposta é não, obrigada. E aposto que assim que estiver fugindo da igreja com meu vestido gigantesco, vou escutar meu noivo pedindo o anel de volta e o padre gritando "A próxima!".

6 arranhões:

Helder Herik disse...

'a gente casa
aluga uma casa
e vive até morrer'
H. H

hauhuahua

Firmeza aew?

bjoO

Branca ;) disse...

ameeei biigã, e cê sabe, concordo com você HAHA

Laís disse...

Tô passando rapidinho e não dá pra postar um comentário decente, mas só pra não passar em branco...
Caramba, a cada dia eu fico mais admirada com o teu jeito de escrever! É de uma sutileza e uma profundidade incrivel! :) Virei fã!

l a l a h disse...

Gostei muito do seu texto, realmente. Esse tema é delicado, mas vocÊ abordou muito bem.
Antigamente casamento era algo sagrado, tão sagrado que chegava a ser ruim para algumas mulheres que as vezes sofriam violencia fisica ou moral dentro de casa e não podiam se livrar disso devido a importancia do conceito casamento. Muitas mantinham casamento pelo bem dos filhos, fato que hoje em dia não é nem um pouco considerado.
Quantos pais nao brigam e ate se batem na frente dos filhos, depois se separam e ficam jogando um contra o outro na cabeça da pobre criança? Como disse é um tema delicado. Não sei ainda se quero me casar, tenho a mesma opinião que vocÊ, vou acabar mordendo a lingua depois... hehe.
Desculpe o coment gigante, mas realmente gostei da sua postagem.

Ana Lu disse...

Ei Ana, mto bom post.
Não é a toa que ganhou o blorkutando, mereceu!
Parabénss
Beijoss

Anônimo disse...

blogueira gata do caraai ;]