18 de dezembro de 2009

Sobre relógios e tesouras


 Uns dizem que a cura para dor-de-cotovelo é um novo amor, uns dizem que o melhor remédio é rir, ou que fazer compras e cortar o cabelo de um jeito esquisito diferente deixam qualquer um repaginado. Na minha opinião, tudo depende do paciente. Tá, um novo amor pode te deixar meio fora de órbita, rir provoca sensações divinas (ainda mais quando não se está rindo sozinho) e fazer compras é o paraíso - pelo menos até que a conta do cartão de crédito chegue -, mas o negócio é que tudo isso vai passar. O novo amor, ainda que perdure, não será mais uma novidade, os sorrisos não surgirão mais com tanta facilidade e se você for demitido (ou seus pais resolverem que aulas particulares de matemática são mais importantes que novos pares de sapatos), pode dar adeuzinho ao não mais seu scarpin vermelho. A verdade é que, a única coisa que pode realmente acabar com o seu problema - ou pelo menos amenizá-lo - é o tique-taque do relógio. O tempo, mesmo que não seja a solução, é a maior distração que se pode encontrar em qualquer situação. Desloca a dor de agora para antes, traz novas dores, novos amores, novas badaladas... Passou. Por mais que abraços de avó e uma aparência bonita nos confortem, as mãos da sua vó pouco podem fazer pelas brigas que você teve com alguém que ama, e um cabelo legal normalmente não ajuda muito em seu (péssimo) desempenho escolar. Há coisas (e palavras) que apenas vêm fazer com que você implore pelo próximo minuto: o "acabou", o "não deu certo", o "sinto muito, não temos vaga". Em certos vários momentos da vida, não importa o quanto você tem ou o quanto você pode fazer. Importa saber aceitar, sentar, tomar um café e colocar um CD de blues enquanto a dor se dissipa. Quando for conveniente para o destino, ele fará o disco arranhar e a bebida esfriar, e daí, num pulo, você levanta e pensa Ei, é isso aí. Está tudo como deveria estar. Eu sabia que tudo ficaria bem!.
É claro que você não sabia. É claro que você poderia não ter ficado bem, afinal, é a vida, não um musical ruim dos anos 80. Nem todo mundo vive cantando, dançando e amando. A vida é quase um filme noir - tão bom que chega a ser um saco. Mas se nada der certo, eu sempre terei os discos antigos dos tempos de boêmio do meu avô. E a voz mansa da minha avó falando baixinho pra que eu não acordasse de um sono fingido, "É uma boa menina, a Ana Beatriz. Espero que ela saiba quebrar a cara, porque, minha filha, quebrar a cara é o mais importante". Sim, é. Espero que eu saiba exatamente o que fazer. E se não souber no momento, um dia eu saberei como agir. Ou como esperar. Às vezes a única coisa útil a se fazer é notar como os ponteiros do relógio se movem devagar, mas, por incrível que pareça, o tempo passa rápido. Nem sempre, mas o tempo todo. E é claro que em todos os cantos dessa cidade eu também acharei um um salão de beleza. Porque, afinal de contas, o tempo nos conforta. 
Mas não tão rápido quanto uma tesoura ou uma tintura de cabelo Vermelho Nuclear.

5 arranhões:

The batata disse...

OMG,
amei seu texto =D
realmente lindo.

Chris disse...

muito legal esse texto.

Anelise disse...

O remedio mais eficiente para as maiores dores e doenças realmente é o tempo, só ele é capaz de curar esses machucados irritantes - apesar de deixar cicatrizes-, o problema é que quando temos um problema [haha¬¬] o tempo demora para passar...e consequentemente para curar.
Beijos

Laís disse...

Eu acho que aprender a lidar com a frustração é a lição mais urgente e a que sempre vai ser necessária.
Não importa o quao grande você já seja, todo mundo tem momentos de derrota e se deixar aceitar é difícil.
Por que né, querendo ou não sua cara vai ser quebrada, só dá pra mudar se vai ser do jeito fácil ou não!
Quando eu era menor eu me apegava a um pedacinho daquele texto mega famoso "Não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte." E até hoje é isso que me vem a mente quando eu penso no assunto.

Ps.
Eu tenho falhado em umas provas aí e tenho realmente pensado nesse assunto! Adorei o tema, bem no meu timing. Hehehe!

Alessandra Almeida disse...

Adorei o seu texto, muito bom. Boa sorte no blorkutando.
Beijos